Desobediência Infantil: Surra, Palmada ou Castigo?

 

Questionada no passado a respeito de dar palmadas nos filhos, a queridíssima Luana Piovani confirmou que sim dava as suas palmadas, embora não achasse certo, e revelou sentimentos contraditórios a respeito. Recentemente, ela veio a público através do seu canal do YouTube e disse que deixaria de fazê-lo. Sendo um tema ainda bastante controverso, achei que valia a pena discutir este assunto.

 

Eu já ouvi amigos dizerem que a razão pela qual nossos filhos são da maneira que são hoje em dia - mau comportamento, arrogância, falta de respeito pelos pais, etc. - é porque já não tomam as surras que eram comuns aos nossos pais e avós. Outros acreditam que não conversamos o suficiente, e que deveríamos fazê-lo com mais frequência, mesmo quando se trata de crianças em idade pré-verbal. Em meio a tantas opiniões divergentes, qual é o melhor curso de ação para manter nossos filhos seguros e ajudá-los a entender o significado de "não"?

 

Quando criança, eu levei minhas surras. Terão sido duas ou três vezes, no máximo, mas quando aconteceram, foram inesquecíveis. Minha mãe nunca usou nada além de suas mãos ou dos chinelos, o que significa que tudo era superficial e temporário. Mas eu me lembro de uma vez, quando eu tinha seis anos, em que eu mexi na vitrola dela (depois de ter sido avisada 300 vezes para não fazê-lo) e quebrei a agulha. Minha mãe me agarrou, me trancou no quarto e me deu aquela “coça”. O engraçado é que, enquanto ela me batia, eu chorava de um lado e ela do outro. No final, ela saiu do quarto para continuar chorando no banheiro e eu fiquei no quarto olhando para o meu polegar direito, que foi o mais prejudicado no processo de tentar proteger a minha bunda do chinelo.

 

Eu não fiquei chateada nem ofendida com o que aconteceu.  Afinal, eu tinha sido avisada e “sabia” que tinha merecido. Mas hoje, olhando para trás e sendo mãe de três, eu sei que não batemos nos nossos filhos por aquilo que dizemos que estamos batendo. Batemos por um sem número de fatores dos quais muitas vezes nem temos consciência. E todas as mães que já bateram ou apanharam dos seus pais sabem (ainda que instintivamente) do que estou falando.

 

Minha primeira filha apanhou um punhado de vezes. Ela era muito indisciplinada e eu era muito jovem, o que tende a ser uma péssima combinação. Já a minha segunda filha nunca levou mais do que palmadas na mão, porque ela sempre foi uma seguidora de regras. E o meu terceiro filho, agora com 3 anos e meio, nunca levou nem palmada, independentemente do seu comportamento. Por que? Acho que conforme eu fui evoluindo como pessoa, e quanto mais eu aprendi sobre desenvolvimento infantil, menos sentido fazia bater. Porque a palmada dificilmente é sobre o que a criança faz ou deixa de fazer, e sim sobre o estado emocional em que nos encontramos. E os resultados tendem a ser menos duradouros do que se pensa.

 

Voltemos a minha própria experiência: neste exemplo que contei da agulha da vitrola, eu lembro que, embora a surra não tenha sido esquecida, não foi ela que mudou meu comportamento. Eu entendia que era algo que os pais tinham o direito de fazer com as crianças quando nos comportávamos mal. Nunca fiquei com raiva da minha mãe. Mas eu também não me lembro de querer tocar na vitrola de novo e parar no meio do caminho por causa da memória daquela surra. Muito pelo contrário: me lembro de ter ficado confusa pelo fato de que minha mãe chorava enquanto me batia. A dor emocional dela era algo além do meu alcance naquele momento, então eu simplesmente não entendi. Olhando para trás, porém, seu choro, juntamente com minha própria experiência como mãe, foi muito revelador.

 

Mesmo que a Ciência e a Psicologia tenham questionado várias vezes o valor educacional de uma surra, muitos de nós continuamos a usa-la como ferramenta, ainda que seja somente em casos extremos. Muitos de nós não o fazemos porque decidimos racionalmente, mas porque chega uma hora que não vemos outro recurso. E dizemos que foram eles (nossos filhos) que nos levaram a isso, mas isso não é verdade. Nove em dez vezes batemos nos nossos filhos porque nossa paciência para lidar com a situação de qualquer outra forma se esgotou. Nós batemos quando sentimos que não podemos fazê-los entender através da conversa e dos pedidos. Batemos para nos afirmarmos em nosso lugar de poder (como se isso já não estivesse suficientemente claro para eles). Mas, acima de tudo, batemos porque perdemos o controle (deles, do nosso temperamento e de nós mesmos).

 

Batemos para dar vazão à nossa raiva. Sim, este é o segredo que ninguém confessa. Não assumimos em voz alta e provavelmente nunca vamos admitir isso para os outros, mas a verdade é que batemos em nossos filhos quando estamos no nosso limite. Não estou dizendo que não foram eles que nos levaram até lá. Mas nós somos os adultos na situação e deveríamos ser capazes de lidar com a nossa raiva sem recorrer a medidas irracionais.

 

Antes de prosseguir, vamos deixar uma coisa clara. Quando falo sobre bater em nossos filhos, não estou me referindo à aquela palmada de vez em quando. Às crianças de 1 e 2 anos falta o recurso de linguagem e as nossas opções para nos comunicarmos com elas são muito restritas. Então, às vezes, um tapa leve na mão pode ser a única maneira eficaz de fazê-los entender, por exemplo, que os dedos nunca devem ser colocados em uma tomada elétrica. Por que o exemplo de uma tomada elétrica? Porque esse é um risco que não pode ser removido do acesso da criança, o que seria a primeira ação apropriada. Também pode ser difícil mantê-los fora da área de risco, uma vez que as tomadas de energia elétrica estão espalhadas por toda a casa (o que seria a segunda ação apropriada). Neste caso, entendo o tapa na mão como uma opção válida porque esta pode ser a diferença entre mantê-las em segurança ou não. Mas qualquer coisa além disso é abuso.

 

Voltando ao nosso tópico, por que você não deveria bater no seu filho? É impossível discutir todas as razões aqui. Mas, para não me estender muito, vou pular os motivos óbvios (por exemplo, que ao bater quando está com raiva, você está ensinando que esta é uma maneira aceitável de lidar com a frustração). Mas chamarei sua atenção para o fato de que o relacionamento de vocês já contem um elemento importante de desequilíbrio de poder. Nessa relação, você é a pessoa a quem a criança deve respeito, você é quem garante a sua sobrevivência (física e emocional) e você é fisicamente maior do que ela em todos os sentidos. Portanto, goste ou não, a resolução da sua fúria através da surra é, neste caso, um abuso de poder.  E essa é a razão principal pela qual devemos estar atentos. Em qualquer outra situação, social ou profissional, temos cuidado para não adotar uma atitude abusiva em relação àqueles sobre os quais exercemos algum tipo de poder. Por que o mesmo não se aplica quando se trata dos nossos filhos?

 

Com o poder vem a responsabilidade. E, embora pequenos, nossos filhos são pessoas em seus anos formativos, que merecem nosso cuidado e respeito. Um relacionamento onde existe um abuso de poder é um relacionamento abusivo, e isso não é aceitável, nem mesmo entre os pais e seus filhos.

 

Além disso, estudos demonstraram que os famosos bullies do colégio geralmente vivem situações assim em casa. Em geral, eles são motivo de piadas dentro da família, são tratados com desdém e desrespeito, e não têm o direito de manifestar a sua raiva ou frustração. Estou dizendo com isso que devemos fazer de tudo para evitar que nossos filhos lidem com frustrações? De jeito nenhum. Estou dizendo que sentimentos precisam ser conversados. E quando não há espaço para isso em casa, ele será comunicado de outras formas, geralmente prejudiciais. Nas relações parentais onde o poder é usado como uma ferramenta coerciva para tentar gerar comportamento, geralmente há muitos sentimentos reprimidos, e estes sempre se manifestam de uma forma ou de outra.

 

Então, se a palmada não é recomendada e não funciona, o que funciona?

 

Voltando à minha própria experiência, castigo sempre foi muito mais eficiente comigo do que surras ou palmadas. Quando minha mãe me batia, a razão pela qual eu tinha apanhado nunca ficava gravada por muito tempo em minha mente. Talvez enquanto a dor durasse, mas não mais do que isso. Agora, quando ela me colocava de castigo, ah, como eu lembrava! Mas o que significa colocar de castigo?

 

Hoje em dia, muitos castigam seus filhos sem necessariamente vincular a ação à consequência. Com isso, o poder do castigo se perde e não é tão eficiente em seu objetivo de eliminar a recorrência daquele comportamento no futuro. Aqui em casa, tento sempre estar atenta para que a punição esteja ligada ao comportamento que quero eliminar. Por exemplo, se as tarefas semanais da minha filha não estiverem terminadas no domingo à noite, não deixo ela sair com os amigos na próxima sexta-feira ou sábado à noite (primeiro a obrigação, depois a diversão). Se não conseguir acordar cedo para o colégio porque fica no telefone até tarde, o acesso ao celular ficará restrito por alguns dias, semanas ou até ela ter responsabilidade sobre seus próprios horários. Se isso acontecer novamente, então a restrição de acesso ao celular pode se tornar a nova norma. Isso pode parecer óbvio, mas é muito comum ver pais estabelecendo castigos completamente dissociados do comportamento transgressor.

 

É importante ter em mente que o que queremos atingir com a punição é a correção do comportamento. Ele não pode ser um substituto para a liberação de raiva que conseguíamos com a surra. Deve ser sempre a ofensa que determina a consequência.

 

Outra coisa que acontece muitas vezes quando os pais querem castigar seus filhos é priva-los do seu amor. Como se eles estivessem dizendo "se você fizer isso, então eu não te amo mais". Com isso, se mostram aborrecidos e eliminam a atenção, o carinho, a conversa.

 

Isso não deveria acontecer jamais. A criança precisa saber que nosso amor é incondicional. O que não é incondicional é a confiança, a liberdade, a diversão ou os presentes de Natal. Estes podem ser condicionais, mas nunca o amor. Condicionar o seu amor pelo seu filho ao seu comportamento coloca um ponto de interrogação enorme em sua autoestima. "Eu vou te amar se você for assim, se você fizer assado, se você satisfazer as minhas expectativas para o que e como você deveria ser". Não! Ao fazer isso, estamos removendo da criança o direito de existir por direito próprio, independentemente de se nos agrada ou não.

 

Finalmente, deixarei uma dica para pais de crianças com comportamento problemático. Muitas vezes, quando as crianças se comportam mal, damos a elas um “tempo pra pensar” durante o qual as removemos do nosso ambiente imediato. Isso não só lhes dá tempo para pensar como nos dá tempo para relaxar. Mas, na maioria das vezes, especialmente quando são adolescentes, o que eles precisam é de mais proximidade, e não distância. Então, às vezes, incluo no castigo passar mais tempo com a família. Isso não só funciona como uma punição (que adolescente quer passar mais tempo com seus pais?), mas também ajuda a minimizar distâncias, melhorar a comunicação, aumentar o vínculo e o carinho e, em geral, ajuda a resolver o problema de fundo, mesmo quando este não está muito claro para nós. Vale a pena tentar.

 

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